A pinta preta da maçã pode ter diferentes causas, e uma das mais importantes é a sarna-da-macieira, que está entre os problemas fitossanitários mais importantes dos pomares de clima temperado. O agente causal, Venturia inaequalis, pode atingir folhas, flores, frutos e brotações jovens.
Em condições favoráveis, a doença progride em ciclos sucessivos e compromete a aparência, a classificação e o valor comercial da produção.
O manejo começa antes de a primeira lesão aparecer. A combinação de redução do inóculo, monitoramento meteorológico, leitura do período de infecção, boa cobertura das aplicações e alternância de modos de ação diminui a pressão da doença e reduz aplicações No pomar.
Para uma visão complementar, consulte o conteúdo do Mais Agro sobre controle de doenças da maçã.
Ficha rápida
| Espécie | Venturia inaequalis |
| Família | Venturiaceae |
| Ciclo | Policíclico. Ascósporos iniciam as infecções na primavera; conídios multiplicam a doença durante a estação |
| Danos | Manchas aveludadas, deformação, rachadura e queda prematura de frutos, desfolha e perda de qualidade comercial |
| Manejo | Redução do inóculo, poda e arejamento da copa, cultivares resistentes, monitoramento climático, modelo de Mills e programa de fungicidas registrado com rotação de grupos FRAC (Fungicide Resistance Action Committee) |
Principais pontos
- O inóculo primário se forma principalmente nas folhas infectadas que permanecem no chão durante o outono e o inverno.
- Temperatura e duração do molhamento foliar são os principais fatores climáticos que definem se um evento cria condições para infecção, desde que haja inóculo e tecido suscetível.
- O modelo de Mills ajuda a classificar o risco após chuva, orvalho ou outro período de molhamento; ele não substitui o monitoramento local nem a bula.
- A proteção preventiva costuma ser mais consistente, nquanto qualquer uso pós-infecção depende da atividade do ingrediente ativo e das indicações da bula do produto registrado.
- Rotação de modos de ação, limitação de aplicações e associação com práticas culturais reduzem a pressão de seleção para resistência.
- Diagnóstico correto e tecnologia de aplicação são necessários para evitar falhas atribuídas, de forma equivocada, à resistência do patógeno.
O que é a sarna-da-macieira e quem a causa
Agente causal e ciclo da doença
A sarna-da-macieira é causada por V. inaequalis, fungo ascomiceto favorecido por temperaturas amenas e alta umidade das principais regiões produtoras. Sua sobrevivência entre safras ocorre, sobretudo, em folhas infectadas depositadas no solo.
Durante o outono e o inverno, o patógeno completa estruturas reprodutivas que darão origem aos ascósporos.
Na primavera, chuva, umidade e maturação dessas estruturas favorecem a liberação dos ascósporos, considerados a principal fonte de inóculo primário.
Eles alcançam tecidos jovens e suscetíveis transportados pelo ar. Se houver temperatura adequada e água livre por tempo suficiente, ocorre germinação, penetração e, após o período de incubação, surgem as primeiras lesões.
Nas lesões ativas, Venturia. inaequalis produz conídios. Esses esporos são disseminados principalmente por respingos de chuva e pelo vento e renovam a infecção dentro da mesma safra.
Por isso, a doença é policíclica: um foco inicial não controlado pode originar várias gerações secundárias, principalmente quando a primavera combina chuvas frequentes, tecidos novos e intervalos curtos entre períodos de molhamento.
Por que é uma das doenças mais importantes da macieira
O impacto econômico não se resume à redução de quantidade. A maçã é comercializada com critérios rigorosos de aparência, e pequenas lesões já podem rebaixar o fruto ou direcioná-lo à indústria. Infecções precoces podem deformar o crescimento, enquanto lesões mais antigas podem rachar e abrir caminho para outros agentes de deterioração.
No Brasil, o risco é maior em áreas de produção do Sul e em ambientes de altitude, onde brotação, chuva e temperaturas amenas frequentemente coincidem. Uma publicação técnica da Embrapa Uva e Vinho e trabalhos da Epagri (Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina) detalham a epidemiologia e o uso de sistemas de previsão para apoiar o manejo regional.
Segundo pesquisadores da Epagri, a doença foi relatada pela primeira vez no Brasil em 1950, no Estado de São Paulo, e hoje está presente em todas as regiões produtoras.
Em anos muito favoráveis e sem controle adequado, as perdas podem chegar a 100% da produção. Por isso, a precisão da decisão é tão importante quanto a escolha do produto.
Como identificar a sarna-da-macieira nos frutos e nas folhas
Sintomas nas folhas
Os primeiros sintomas costumam aparecer como manchas pouco definidas, verde-oliva, que evoluem para áreas mais escuras com superfície aveludada. Esse aspecto resulta da produção de esporos sobre a lesão. As manchas podem ocorrer nas duas faces da folha, embora a visualização varie conforme idade do tecido, cultivar e posição na copa.
Com a evolução, as lesões podem adquirir tonalidade castanha, coalescer e provocar deformação e encarquilhamento das folhas; folhas muito atacadas amarelecem e caem precocemente.Sintomas nos frutos
Nos frutos, as lesões são circulares, escuras e de bordas definidas. Sob umidade, podem manter o aspecto aveludado. Quando a infecção ocorre cedo, o tecido lesionado perde elasticidade enquanto as áreas sadias continuam crescendo; o resultado pode ser deformação, crescimento irregular, aspecto corticoso e rachaduras. Infecções mais tardias tendem a produzir manchas menores, mas ainda prejudicam o padrão visual exigido pelo mercado.
A avaliação deve incluir folhas internas, brotações, frutos em diferentes posições e áreas do pomar com histórico da doença. Uma inspeção visual isolada não basta para definir a causa, pois danos mecânicos, fitotoxicidade e outras manchas podem produzir sintomas semelhantes. Quando houver dúvida, o diagnóstico deve ser confirmado por responsável técnico ou laboratório fitopatológico.

Sinais que justificam investigação imediata
- Manchas verde-oliva ou castanho-escuras com aparência aveludada em folhas novas.
- Lesões circulares em frutos recém-formados, principalmente depois de sequência de chuva e temperatura amena.
- Deformação localizada ou rachadura ao redor de lesões antigas.
- Aumento rápido do número de manchas após um período de molhamento compatível com risco de infecção.
- Persistência de sintomas apesar de aplicações, exigindo auditoria de dose, cobertura, momento, chuva após aplicação, diagnóstico e possível perda de sensibilidade.
Condições que favorecem a epidemia: o modelo de Mills
Como funciona o modelo de Mills
O modelo proposto por Mills (1944) e posteriormente atualizado com LaPlante (1951) relaciona a temperatura média durante o molhamento foliar ao número de horas em que o tecido permanece molhado.
A lógica é simples: V. inaequalis precisa de água livre para germinar e infectar; dentro de uma faixa térmica favorável, menos horas de molhamento podem ser suficientes. Em temperaturas mais baixas ou mais altas, o processo tende a exigir um período maior.
Versões modificadas da tabela original são usadas em sistemas de alerta. A revisão de MacHardy e Gadoury (1989), por exemplo, reduz o tempo de molhamento necessário para infecção por ascósporos, o que torna a tabela clássica mais conservadora na leitura de risco.
| Temperatura média | Molhamento aproximado | Leitura prática |
| 7 °C | 21 horas | Risco pode se estabelecer mesmo no frio, mas exige molhamento prolongado |
| 10 °C | 14 horas | Uma noite úmida seguida de manhã molhada pode completar o período crítico |
| 15 °C | 10 horas | Faixa favorável; eventos relativamente curtos já merecem atenção |
| 20 °C | 9 horas | Faixa de maior favorabilidade à infecção, quando há tecido suscetível e inóculo |
| 25 °C | 11 horas | O risco permanece, mas o tempo necessário volta a aumentar |
Fonte: adaptado de Mills (1944), com revisão de Jones et al. (1980), conforme NEWA/UMass Extension.
Exemplo prático: se o sensor indicar temperatura média próxima de 20 °C e nove horas contínuas de molhamento, o evento alcança uma referência clássica de infecção leve.
Isso não significa aplicar automaticamente: é preciso considerar proteção residual existente, estádio fenológico, presença de inóculo, chuva acumulada, lavagem, previsão das horas seguintes e registro do fungicida.
Como usar o modelo para tomar decisões de aplicação
O uso mais assertivo do modelo ocorre quando a equipe registra cada evento e cruza os dados com o histórico do talhão. Estações meteorológicas e sensores de molhamento devem representar a copa e as áreas mais sujeitas à permanência de umidade.
Equipamentos muito expostos, sombreados de forma artificial ou mal calibrados podem subestimar ou superestimar o risco.
Em uma estratégia preventiva, a proteção é posicionada antes de um evento previsto como favorável, respeitando o intervalo, o alvo, a dose e as condições de aplicação definidos em bula.
Se o evento já ocorreu, a decisão não pode ser baseada em uma janela genérica: a atividade pós-infecção varia por ingrediente ativo e formulação. A indicação registrada e a recomendação do engenheiro-agrônomo devem prevalecer.
Roteiro operacional após chuva ou orvalho prolongado:
- Conferir início e fim do molhamento e calcular a temperatura média do período.
- Classificar o evento na tabela adotada pelo sistema regional ou pela assistência técnica.
- Verificar estádio da cultura, presença de folhas e frutos suscetíveis e liberação de inóculo primário.
- Revisar a última aplicação: produto registrado, modo de ação, intervalo, cobertura e chuva posterior.
- Definir a ação com o responsável técnico e registrar a justificativa para comparação com os sintomas futuros.
O ganho do modelo está em substituir a aplicação por data por uma decisão ligada ao processo de infecção. Em períodos secos, ele ajuda a evitar tratamentos sem risco epidemiológico evidente. Em sequências chuvosas, mostra quando a proteção precisa ser revista, sem dispensar avaliação de campo.
Programa de fungicidas e manejo de resistência
Grupos de fungicidas e modos de ação
Fungicidas de sítio específico atuam em processos metabólicos definidos e, por isso, podem apresentar maior risco de seleção de indivíduos menos sensíveis. Fungicidas multissítios afetam diferentes pontos do patógeno e normalmente têm risco menor.
O programa deve combinar essas características sem extrapolar culturas, alvos, doses, misturas ou números de aplicação autorizados.
| Grupo | Código FRAC | Papel no programa | Atenção antirresistência |
| IBEs (Inibidores da Biossíntese de Ergosterol), como os triazóis | 3 | Ação sistêmica; alguns ingredientes apresentam atividade preventiva e pós-infecção dentro do uso registrado | Perda de sensibilidade já relatada em populações de V. inaequalis; evitar repetições contínuas e respeitar limites do ingrediente |
| QoI (inibidores da quinona externa), estrobilurinas | 11 | Atuam na respiração mitocondrial (complexo III) e apresentam resultado mais consistente quando usadas preventivamente | Risco elevado de resistência, com casos relatados em V. inaequalis; alternar e limitar aplicações |
| SDHI (inibidores da succinato desidrogenase), carboxamidas | 7 | Atuam na respiração mitocondrial (complexo II) e podem integrar programas preventivos | Risco médio a alto; usar conforme recomendações do FRAC e da bula, sem depender do grupo isoladamente |
| Multissítios | M | Proteção de contato e base para diversificar a pressão de seleção | Baixo risco de resistência, mas exigem cobertura e reposicionamento conforme bula e chuva |
Antes de definir o programa, é recomendável confirmar no Agrofit (Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários), do Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária), quais produtos estão registrados para a cultura e para o alvo. A bula, o receituário agronômico e as recomendações de uso e de proteção individual são obrigatórios.
Rotação de grupos FRAC e prevenção da perda de sensibilidade
Rotacionar significa alternar modos de ação efetivamente diferentes, e não apenas trocar nome comercial ou ingrediente dentro do mesmo grupo.
Produtos com o mesmo código FRAC compartilham o mesmo modo de ação e podem apresentar um risco de resistência. A sequência deve considerar o risco de cada grupo, o limite de aplicações indicado em bula e a fase de maior pressão da doença.
Uma arquitetura possível começa com proteção preventiva de baixo risco, intercala grupos de sítio específico acompanhados por parceiros adequados e retorna a modos de ação diferentes nas aplicações seguintes.
Essa lógica é conceitual, não uma receita universal. Compatibilidade, registro de mistura, intervalo, seletividade, chuva, volume de copa e período de carência precisam ser definidos para cada situação.
Boas práticas para preservar a ação dos fungicidas:
- Usar a dose de bula, sem reduzir concentração para compensar aumento do número de aplicações.
- Priorizar posicionamento preventivo e evitar iniciar o controle com alta severidade instalada.
- Não repetir continuamente o mesmo código FRAC; considerar todas as aplicações da safra no planejamento.
- Integrar fungicidas multissítios quando houver indicação registrada e compatibilidade técnica.
- Auditar cobertura, velocidade, volume, tamanho de gotas e condições meteorológicas antes de concluir que houve resistência.
- Registrar falhas e encaminhar amostras para avaliação quando houver suspeita consistente de perda de sensibilidade.
A qualidade do depósito influencia diretamente o resultado. O conteúdo sobre tecnologia de aplicação ajuda a revisar calibração, cobertura e redução de perdas. Para conteúdos complementares, acesse também a editoria de fungicidas do Mais Agro.
Práticas culturais como base do manejo
Manejo das folhas caídas: redução do inóculo primário
As folhas infectadas que permanecem no chão sustentam a fase sexuada de V. inaequalis. Triturar e incorporar esse material acelera a decomposição e reduz a quantidade de estruturas capazes de liberar ascósporos na primavera.
A operação precisa alcançar as entrelinhas e as áreas sob a projeção da copa, onde as folhas se acumulam.
A aplicação de ureia no período de queda das folhas, na planta ou sobre as folhas já caídas, é citada pela Embrapa para reduzir o inóculo: o produto acelera a decomposição do material por microrganismos e minhocas e interfere na formação das estruturas reprodutivas do fungo.
A Embrapa cita calda com 3,5% a 5% de ureia; concentração, volume, compatibilidade com o sistema do pomar e cuidados ambientais devem seguir recomendação técnica local.
A prática não elimina a necessidade de proteção, mas reduz a pressão inicial e torna o restante do programa mais manejável.
Poda, condução e microclima do pomar
Copas muito fechadas permanecem molhadas por mais tempo e dificultam a penetração da calda. Poda e condução equilibradas melhoram a circulação de ar, favorecem a entrada de luz e tornam a cobertura mais uniforme. O objetivo não é abrir excessivamente a planta, e sim evitar zonas densas e sombreadas que prolongam a umidade e funcionam como refúgios para a doença.
Brotações e folhas com lesões suspeitas, áreas de copa muito densas e plantas desuniformes merecem atenção durante a inspeção.
Cultivares com resistência genética podem reduzir a dependência de fungicidas, já que as cultivares mais plantadas no Brasil, como Gala e Fuji, são suscetíveis, embora a escolha também envolva adaptação regional, exigência de mercado, qualidade do fruto e durabilidade da resistência.
Checklist de manejo ao longo da safra
| Momento | O que observar | Decisão de manejo |
| Pós-colheita e queda de folhas | Histórico de severidade e acúmulo de folhas no solo | Planejar trituração, incorporação e aplicação de ureia sobre folhas caídas, conforme recomendação técnica |
| Dormência e pré-brotação | Condição da copa, sensores e registros da safra anterior | Executar poda, revisar equipamentos e atualizar o plano de rotação FRAC |
| Da ponta verde à floração | Maturação do inóculo, chuva prevista, molhamento e tecidos suscetíveis | Priorizar proteção preventiva registrada e monitorar cada evento de risco |
| Frutificação inicial | Fim da liberação de ascósporos, lesões em folhas e frutos, sequência de chuvas e cobertura da copa | Reavaliar intervalo, grupo FRAC, depósito e necessidade de reposicionamento |
| Desenvolvimento dos frutos | Infecções secundárias, rachaduras e focos dentro do pomar | Manter rotação e sanidade; evitar seleção por repetições do mesmo modo de ação |
| Após suspeita de falha | Diagnóstico, dose, calibração, chuva, momento e procedência do produto | Corrigir fatores operacionais e investigar sensibilidade com suporte técnico |
Decisão orientada por risco protege o pomar
O manejo da sarna-da-macieira da maçã começa com a redução do inóculo e ganha precisão quando temperatura, molhamento foliar e estádio da cultura são interpretados em conjunto. O modelo de Mills organiza essa leitura, mas o resultado depende de sensores confiáveis, inspeção frequente, proteção bem posicionada e programa antirresistência coerente.
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Perguntas frequentes sobre pinta preta da maçã e sarna-da-macieira
1. 1. Toda pinta preta na maçã é sarna-da-macieira?
Não. A sarna-da-macieira, causada por V. inaequalis, é uma das principais causas de lesões escuras em folhas e frutos, mas danos mecânicos, fitotoxicidade e outras doenças podem produzir manchas semelhantes. Na dúvida, o diagnóstico deve ser confirmado por responsável técnico ou laboratório fitopatológico.
2. Qual é o primeiro sintoma nas folhas?
Manchas verde-oliva, pouco definidas e com aspecto aveludado, que podem surgir nas duas faces da folha. Com o avanço, tornam-se mais escuras e podem coalescer.
3. Por que a chuva aumenta o risco?
A chuva libera os ascósporos das folhas caídas, dissemina os conídios por respingos e forma a água livre necessária para a germinação dos esporos. A duração do molhamento, combinada à temperatura, define o potencial de infecção.
4. O que é o modelo de Mills?
É uma relação entre temperatura média e horas de molhamento foliar usada para classificar o risco de infecção e apoiar a decisão sobre o momento de aplicação.
5. Nove horas de molhamento sempre significam infecção?
Não. Entre 16 °C e 24 °C, esse período é uma referência clássica para infecção leve.
6. É possível controlar apenas com fungicidas?
Não é a estratégia mais consistente. Redução do inóculo, poda, monitoramento, cobertura correta e rotação de modos de ação tornam o programa mais consistente.
7. Como agir quando aparecem lesões após uma aplicação?
É recomendável revisar diagnóstico, dose, momento de aplicação, chuva, cobertura, calibração e código FRAC. Se a falha for consistente, o caso deve ser avaliado pela assistência técnica, com investigação de possível perda de sensibilidade


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